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Os Yoga Sūtra de Patañjali

  • Foto do escritor: Centro Yoga Mafra
    Centro Yoga Mafra
  • 1 de jan.
  • 9 min de leitura

Atualizado: 10 de jan.



NOTA IMPORTANTE: ESTE TEXTO FAZ PARTE DE PROJECTO DE PUBLICAÇÕES NAS REDES SOCIAIS COMO TAL VAI SENDO ATUALIZADO À MEDIDA QUE VÃO SENDO PUBLICADOS OS "SUTRAS" NO INSTAGRAM E FACEBOOK - NÃO É A OBRA COMPLETA LOGO NO INICIO.


Considerar os “Yoga Sūtra*s de Patañjali” como um texto sobre a prática física do Yoga é
puro engano e equívoco.

Os yoga Sūtra*s de Patañjali são como que um manual de instruções para a mente, não para o corpo, mas lá chegaremos. Assim sendo, convido-te a juntares-te a mim na investigação do papel do texto “Yoga Sūtra*s” no Yoga.

A lenda do nascimento de Patañjali
Nenhum outro país baseia sua história em lendas e mitos como a Índia e Patañjali não é exceção.Reza a lenda que Viṣṇu estava deitado sobre Ādiśeṣa (serpente de mil cabeças) quando pela primeira vez viu Nataraja (śiva a dançar) e ficou em êxtase e começou a tremer violentamente.

No final da dança Ādiśeṣa perguntou a Viṣṇu o que tinha acontecido e ao ouvir a resposta quis aprender a dança para poder presentear Viṣṇu com essa dança que tanto lhe tinha agradado.Viṣṇu ficou de tal forma impressionado com tal devoção por parte de Ādiśeṣa que lhe prometeu que na sua próxima encarnação nasceria como alguém que iria enriquecer a humanidade com o seu ensinamento.

Ādiśeṣa começou logo a imaginar quem seria a sua futura mãe, ao mesmo tempo ali por perto uma yogini dedicada chamada Goñikā que desejava há muito tempo ter um filho para lhe transmitir o que tinha aprendido sobre o yoga decidiu prostrar- se diante de Sūrya em devoção e ofereceu-lhe a única coisa que podia – uma oferenda de água para que Sūrya lhe concedesse um filho. Ao ver isto Ādiśeṣa soube de imediato que Goñikā seria a sua futura mãe, e não mãos de Goñikā a oferenda de água se materializou numa pequena serpente que depois foi crescendo adquirindo formas humanas. Ādiśeṣa suplicou-lhe que a aceitasse como filho o que Goñikā fez de muito agradado dando-lhe o nome de Patañjali (aquele que caiu do céu durante a oferenda),Pata significa caído e anjali oferenda.

Patañjali é representado como um naga, um ser mítico metade humano metade serpente, numa mão com uma concha e noutra um cakra (símbolos de Viṣṇu) e as outras duas em anjali mūdra, dessa forma abençoando todos aqueles que a ele se dirigem na procura do ensinamento do Yoga.

Patañjali foi o autor do texto ou apenas um compilador?

Patañjali é conhecido como sendo o autor da obra Yoga Sūtra*s entre outras, mas tudo sobre Patañjali é um verdadeiro mistério. Na India dá-se pouca importância sobre as datas dos textos, mas, mais ao seu conteúdo e no caso de Patañjali alguns autores afirmam ter vivido no sec. II d.C. e outros IV ac. Isto muitas vezes deve- se ao facto de era tradicional um aluno quando escrevia um livro dava a sua autoria ao seu professor como forma de recompensa pelo ensinamento recebido tal como Svami Sivanada “escreveu” mais de 200 livros. Outro fator que possa ajudar a mente ocidental a colocar cronologicamente a vida de Patañjali é a forma de escrita: os sutras – aforismos.

Aforismo são frases curtas, quase como palavras soltas por vezes juntas, ausente muitas vezes de verbos e etc. que continham todo o ensinamento que se pretendia transmitir. Atesta- se como verdade que tal razão para “comprimir” o ensinamento em poucas palavras ligadas se devia ao facto de tal como os mantras ser mais fácil de memorizar. Outras explicações são apontadas, mas para esta investigação pouco acrescentam.Sobre a questão de que terá sido Patañjali o autor dos yoga sutras ou apenas um compilador a dúvida ainda existe pois por um lado o nirodha samhita, sastra atribuído a Hiranyagarbha ( Rishi Kapila) tido como o patrono do yoga é chamado muitas vezes por: Yogānuśāsanam ou “ ensinamento do yoga” exatamente as palavras com as quais Patañjali começa a sua obra.
Por outro lado, em outra parece estranho logo no segundo aforismo surge a definição de yoga usando a palavra nirodha atribuída a Hiranyagarbha. Infelizmente estes sastras encontram-se hoje “perdidos”.
A maior controvérsia surge no quarto capítulo. O estilo, o conteúdo e a extensão deste pada são diferentes dos outros três capítulos.

No quarto capítulo repete-se assuntos já abordados e tidos como “arrumados” nos outros três. Nos três primeiros o conteúdo e forma são acessíveis e não dogmáticos ou demasiado filosóficos. Os três primeiro parecem ser dirigidos para o Yogin comum, os quatro parece ter sido escrito apenas para literatos.
No quarto capítulo o “narrador” fala de um ponto de vista de quem já viveu, já experimentou, já chegou a algo, enquanto os outros três se referem a alguém que ainda “procura”, busca...

Se colocarmos de parte todas as dúvidas sobre quando e sobre quem escreveu, compilou os Yoga Sutras, o facto é que temos a obra entre nós como sendo uma referência obrigatória para todas as formas de yoga praticadas hoje em dia e um excelente manual para quem
deseja alcançar aquilo sobre qual o texto fala: tranquilidade da mente, realização pessoal, autoconhecimento...

Antes de iniciar o estudo ou investigação sobre os papel dos Yoga Sūtra*s no Yoga e Meditação, convém referir que é com base neste texto que se afirmou o Yoga como filosofia oficial na Índia denominado dārśana (em sânscrito escola pra vida), neste texto encontramos facilmente conselhos para cultivarmos uma saúde plena, uma chave para vivermos uma vida feliz atingindo o que todo humano deseja: saber quem sou eu ?

Urge salientar que os Yoga Sūtra*s não são um romance, ou um poema são aforismos, sutras na realidade podia ser traduzido por perolas, que precisam de ser polidas na mente do leitor e sempre com a ajuda de um professor que esteja totalmente realizado em vida e sobre a vida.
Importante referir que toda e qualquer tentativa de “tradução” do sânscrito deve ser evitada, assim que compreendido o significado de determinada palavra, esta deverá ser usada sempre na sua língua original como no caso de Yoga que não estamos sempre a traduzir por união.

Por vezes referimo-nos ao yoga como as aulas nas quais fazemos algumas posturas com o corpo e raramente nos referimos de facto à união do corpo-mente com essa entidade superior à qual cada um de nós dá o nome que quiser segundo as suas crenças, história de vida, influencia familiar, mas que na realidade é una... o todo.
āsana não é postura, āsana é uma postura com uma respiração adequada, com bandhas, com um propósito, com uma intenção, com um foco que permite a concentração e muito mais, não é só “encaixar” o corpo numa posição.

O exemplo acima demonstra a dificuldade referida em tentar traduzir palavras do sânscrito para português, por isso mais vale não o fazer, pois traduzir é interpretar, pois toda e qualquer tradução inclui a visão do tradutor sobre o assunto a ser traduzido.
Comecemos o estudo...
Imagine um tese de doutoramento sobre o Yoga, já foi escrita, reescrita após orientação de o mentor da tese, apresentada perante o júri, corrigida e aprovada. Agora vai ser divulgada ao público....
Assim são os "Sutras"

No início do texto, a preocupação do autor é a apresentação resumida do seu trabalho. As duas primeiras frases do texto dão conta da natureza dos sūtra (usaremos termo: Sutras para
o fluido estudo do texto) e da natureza do योग-yoga.
Patañjali deixa bem claro nesta frase de abertura que não está apresentar um texto aberto a
sugestões.

Quem desejar estudar o Yoga deve aceitar o conteúdo dos Sutras tal como ele é apresentado, sem alterações.

Um sutra é uma frase que, habitualmente, surgia no final de longos períodos de debates, durante os quais as ideias eram tratadas, discutidas e amadureciam no calor de disputas verbais bem acesas entre os sábios.

Quando se chegava a um consenso, formava-se um sistema filosófico consistente e um de entre os melhores praticantes do sistema era convidado a elaborar o/os aforismos (como quem fica responsável por elaborar a ata de uma reunião que apos escrita deverá ser assinada por todos os presentes na reunião e assim aprovada) que o perpetuariam de forma inquestionável, daí o zelo em relação ao seu questionamento.

Um debate de séculos entre indivíduos que orientavam suas vidas pelos preceitos que apregoavam, como sempre fazem os sábios reconhecidos, não poderia ser reaberto, sem mais nem menos, por um iniciante qualquer, muito menos traduzido à letra ou interpretado a seu belo prazer.
Depois de deixar bem claro que os Sutras devem ser preservados da forma como são apresentados, o autor entra no assunto definindo com brevidade o que é o Yoga.


॥ समधिपादः ॥
॥ samādhipādaḥ ॥
O caminho do samādhi

॥ थमोऽध्यायः ॥
॥ prathamo’dhyāyaḥ ॥

O primeiro capítulo

॥ samādhipādaḥ ॥
pāda - caminho... ḥ - o, a, os, as


अथ योगानुशासनम् ॥ १ ॥
atha yogānuśāsanam I:1
atha - agora
Significado da palavra: atha em sânscrito segundo o dicionário de Monnier Williams
atha— agora, a partir daí, portanto, assim,bem como,desta forma, dele, alem de, como tambem, depois desta, certamente, naquele momento, como tal, ou, se, no entanto, por esta razão, para a questão, assim por diante, em simultaneo, afinal, de outra forma,
atha— afinal

yoga - unir, juntar, ligar
anu - elevado, proeminente, máximo
śās - açoitar, castigar, impor
śasāna - tese, ensinamento imposto não questionável ...
...am - forma "pluralizante"

Algumas "interpretações":

1.Agora, o ensinamento do Yoga. PK
1. Eis os postulados mais elevados do Yoga. CB
1.1 - Agora, a instrução do Yoga. Lil
1.1 Now concentration is explained. Vivek

Urge uma nota: quando Patañjali usa a palavra "agora" não pressupõe que o aluno anteriormente não estaria preparada e que agora sim já estaria preparado para o ensinamento.
O uso da palavra agora é uma forma literária de começar um texto na india tal como se fosse uma história que começa por " era uma vez "


योगश्चित्तावृत्तिनिरोधः ॥ २ ॥
yogaścittavṛttinirodhaḥ || 2 ||

yogaḥ + citta + vṛtti + nirodhaḥ
citta
citta— mente(manas) + ego(ahaṅkāra) + intelecto(buddhi)
citta— a mente ou da...
citta— consciência ou da...
citta—coração ou do...
citta—deseja
citta-tanvoė— tanto na mente como no corpo(tan).

vṛtti
vṛtti- girar, dar a volta.
vṛtti - Ser, existência.
vṛtti - Permanente, remanescente, atitude
vṛtti - Estado, condição;
vṛtti - Ação, movimento, função, funcionamento
vṛtti - Curso, método
vṛtti - A circunferência de uma roda ou círculo.
vṛtti - Conduta, comportamento, comportamento, modo de ação
vṛtti - Profissão, ocupação, negócios, emprego
vṛtti - Salário, aluguer.
vṛtti - Tratamento respeitoso
vṛtti - Modo de pensar.
citta-baḍiśam— com o coração
citta-bhūmim— dentro do coração
citta-śuddhi— limpeza do coração
yata-citta — controlando a mente
yata-citta-indriya—controlando a mente e os sentido


Vṛtti, literalmente significa: remoinho.
Vṛtti é um termo técnico no yoga destinado a indicar que o conteúdo da consciência mental são perturbações no meio da consciência.
Vṛtti pode ser tomado como um termo para qualquer conteúdo naconsciência, onde a consciência é considerada como um meio ou recipiente para qualquer possível conteúdo mental.
O âmbito da ideia é muito amplo, referindo-se não só aos pensamentos e percepções experimentados num estado normal de vigília, mas também a todas as percepções super- físicas, como sonhos ou em qualquer estado alterado de consciência.
No contexto do hinduísmo e do yoga, vṛtti*refere-se a diferentes tendências, ou propensão psicofísica, que dão espaço para a mente expressar uma variedade de sentimentos e emoções. Textos hindus descrevem samskaras como resultado de ações e experiências passadas que deixaram uma marca na mente. A expressão de samskaras dá origem a vṛtti*s, que representam coletivamente o comportamento que torna cada pessoa única: os seus desejos e repulsões, as suas predisposições e complexos.
Segundo a visão da ciência moderna e de acordo com algumas descrições modernas, um vṛtti estimula as glândulas associadas a essa propensão particular para segregar as hormonas correspondentes.

Normalmente isto é feito subconscientemente, embora os yogi*s se pratiquem a capacidade de controlar e dominar a expressão dos seus vṛtti*s, através da
prática de āsana*s (posturas) e sādhana, levando à realização de siddhi*s (poderes ocultos) e dando uma passagem clara para que a kundalinī se eleve.


nirodha
nirodha - Confinamento, prisão
nirodha - Enclosão, encobrimentonirodha - Restrição, verificação, supressão, controlo nirodha - Obstáculo, obstrução, oposição, preservativo.
nirodha - Magoar, punir, ferir.
nirodha - Aniquilação, destruição completa
nirodha - Aversão, não gosto.
nirodha - Desilusão, frustração dasesperanças (em linguagem dramática).
nirodha - Supressão da dor.

Algumas "interpretações":

"Yoga é a cessação da [identificação com] os conteúdos da psiquê." Pedro Kupfer
"Yoga é a supressão dos movimentos da consciência." Lilian
"O yoga é o recolhimento [nirodha] dos meios de expressão[vrttis] da mente [citta]" CB
"Yoga is restraining the mind-stuff (Chitta) from taking various forms (Vrttis)" Vivek
"The restrains of the modifications of the mind-stuff is called Yoga".SatCittananda
"Yoga é o controlo das funções mentais"
"Yoga é a supressão das instabilidades da consciencia"
"Yoga é a disciplina individual que conduz à cessação das flutuações mentais"

तदा द्रष्टुः स्वरूपे वसथानम् ॥ ३ ॥
tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam ॥ 3 ॥

tadā(तदा) = então, depois de...
Nota: não confundir com:
tāḍa(ताड)—bater, tareia, chicotear, batida (música percussão)
tāḍa (ताड) - montanha, como em tāḍāsana (ताडासन)

draṣṭuḥ = possessivo de draṣṭṛ, “aquele que vê”, o Ser
Nota: draṣṭṛ aponta também para dṛṣṭi (दृिष्ट) sendo de salientar que dṛṣṭi não é "só" olhar,
mas sim remete para a visão, e também para algo que em inglês dizemos: gaze (olhos fixos sem usar o nervo ótico) ou glance (olhar de repente ou de soslaio).

svarūpa = sua própria natureza, ou “sua própria forma”sva - algo celestial como na palavra svāḥ (pertencente ao céu ou referente ao Ser) rūpa - forma, essência, matéria prima, natureza, de que é feito....

avasthānam = de pé, remanescente, residente, permanente, habitação, estabiliza-se
ava - de pé
sthāna - lugar.
Nota: rajasthāna - rajastão terra/lugar dos Reis;
pakisthāna - Paquistão terra/lugar dos "Pakis";

svādhiṣṭhāna (cakra) - svāh + avaṣṭhāna: ser+lugar e onde reside o ser há felicidade. Algumas "interpretações":

tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam ॥ 3 ॥
"Então, aquele que vê se estabelece em sua própria natureza."PK 1:3
"Isto feito, obtém-se a permanência da testemunha em sua natureza própria." Lilian 1:3.
Então “aquele que vê” (o percebedor) se manifesta em sua natureza mais autêntica

वृत्तिसारूप्ममिरत्र ॥ ४ ॥
vṛttisārūpyamitaratra ॥ 4 ॥
vṛtti ...
sārūpyam = identificação, conformidade, concordância, similaridade
itaratra = de outra maneira

Aqui, Patañjali usa a palavra sārupyam, que aponta para: “identificação”, para deixar claro que nirodhaḥ não é “parar de pensar”, mas interromper a identificação com pensamentos, crenças, medos, gostos, aversões, condicionamentos e emoções.

Algumas "interpretações":
vṛttisārūpyamitaratra ॥1:4 ॥

"De outra maneira, existe identificação com os vṛttis." PK"
Caso contrário, ocorre a assimilação dos movimentos." Lilian"
Nesta outra [condição, está] perfeitamente adequado aos meios de expressão [vṛtti ́s]". CB

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